11/06/2012

Dificuldades e soluções na prática do aleitamento materno sob a ótica lactante

TANILA AMORIM GLAESER
INTRODUÇÃO
A amamentação é a melhor maneira de proporcionar o alimento ideal para o crescimento saudável e o desenvolvimento dos recém-nascidos, além de ser parte integral do processo reprodutivo, com importantes implicações para a saúde materna.

A Organização Mundial de Saúde recomenda, para a população em geral, que os bebês recebam exclusivamente leite materno durante os primeiros seis meses de idade. Para tanto, a OMS e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) orientam ainda: 1) iniciar a amamentação nas primeiras horas de vida da criança; 2) amamentação exclusiva, ou seja, o lactante recebe apenas leite materno, sem nenhum outro alimento ou líquido, nem mesmo água; 3) que a amamentação aconteça sob demanda, ou seja, todas as vezes que a criança quiser, dia e noite; 4) não usar mamadeiras nem chupetas.


 Depois dos seis meses, com o objetivo de suprir suas necessidades nutricionais, a criança deve começar a receber alimentação complementar segura e nutricionalmente adequada, juntamente com a amamentação, até os dois anos de idade - ou mais.

O reconhecimento das vantagens da amamentação, tanto para os lactentes como para suas mães, e dos riscos e custos associados ao desmame precoce, fizeram surgir, a partir da década de 1980, várias iniciativas de organismos internacionais da área da saúde para promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. (BRASIL,2008)

Entre essas iniciativas estão as recomendações sobre alimentação infantil da Organização Mundial de Saúde e a promulgação do “Código Internacional de Controle do Marketing de Alimentos Substitutos do Leite Materno” pela Assembléia Mundial de Saúde (WORLD HEALTH ORGANIZATION; UNITED NATIONS CHILDREN’S FUND, 1981), e os “Dez Passos para o Sucesso do Aleitamento Materno” (WORLD HEALTH ORGANIZATION; UNITED NATIONS CHILDREN’S FUND, 1989). Este último deu origem à estratégia Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), entre outras. Seguindo as recomendações internacionais, e por ser signatário delas, em 1981 o Brasil iniciou a implementação do “Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno” (PNIAM) (BRASIL, 1981). Em 1989, a publicação da portaria ministerial referente às “Normas Brasileiras de Comercialização de Alimentos para Lactentes” (BRASIL, 1989) iniciou uma série de políticas e programas de saúde nas décadas seguintes. (BRASIL, 2008)

É notório que as transformações da sociedade no decorrer dos anos vêm influenciando nas formas de alimentação dos lactantes. Onde se destacam: processo de urbanização crescente das populações; inserção das mulheres ao mercado de trabalho; mudanças padrões culturais e de assistência à saúde.

Apesar de as taxas de aleitamento materno no Brasil crescer continuamente a cada ano, os valores observados no país ainda é considerado baixo pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A última Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde, consolidada em 2006 pelo Ministério da Saúde, apontava que 39% das crianças nessa faixa etária recebiam o peito da mãe.

Segundo Arantes (1995), mesmo em sociedades onde a amamentação é a regra, as mães normalmente introduzem alimentação complementar ou líquidos muito cedo. Vários estudos publicados são unânimes ao fazerem a seguinte constatação: o desmame precoce é algo concreto e significativo e a principal causa apontada pelas mães é a hipogalactia, ou seja, as alegações maternas de “pouco leite” e “leite secou”. Porém, os trabalhos não avançam no sentido da compreensão de tais alegações, haja vista que as hipogalactias primárias são muito raras.

A cultura e a opinião subjetiva determinam de que forma a nutriz irá alimentar seu bebê, favorecendo ou restringindo a amamentação (Nogueira, 2011). Tendo em vista a importância do aleitamento materno para a criança e a mulher, entendo que o sucesso da promoção da amamentação está relacionado a programas educativos e valorização dos hábitos culturais ligados à prática.

Sendo assim, busquei compreender, através da ótica da lactante, suas dificuldades e soluções para efetivação do aleitamento materno. Podendo, com os resultados, embasar futuras discussões nas técnicas de manejo clínico da amamentação, respeitando as opiniões e crenças das lactantes.


MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de um estudo do tipo seccional, que é uma estratégia de estudo epidemiológico que se caracteriza pela observação direta de determinada quantidade planejada de indivíduas em uma única oportunidade (Medronho, 2009).

O instrumento de coleta utilizado para o presente estudo foi o questionário, contendo perguntas classificadas como abertas.  Possibilitando assim, segundo Medronho (2009), uma proposta exploratória, de busca de hipóteses que expliquem inter- relações de fenômenos ainda não conhecidos, ou pelo menos, elaboradas de forma consciente pelos pesquisadores.

As perguntas foram feitas a lactantes de um grupo de mães, da rede social Facebook, intitulado Mamães Capixabas, do qual faço parte, e que residem no Espírito Santo. Foi considerado nesse estudo o número total de quinze mulheres que amamentaram ou estavam em processo de amamentação, com filhos de até 1 (hum) ano de idade no período do questionário.

 Os questionários foram enviados por e mail após serem explicados todos os objetivos do trabalho, deixando claro que seus dados pessoais não seriam divulgados e que sua participação na pesquisa era voluntária, sem envolvimento financeiro.

RESULTADOS E DISCUSSÕES
Segundo Bardin (1977), a análise de conteúdo pode ser entendida como um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
Ao utilizar o questionário como instrumento de uma estratégia de investigação foi preciso contextualizar as relações pessoais e compreender as condições sociais de produção dos discursos, nos possibilitando descrever e situar os fatos únicos e os cotidianos, construindo assim, cadeias de significação.
Na análise e discussão do estudo foram extraídas duas categorias temáticas, quais sejam: o parto e o aleitamento. A categoria aleitamento ensejou oito subcategorias: amamentação na primeira hora, aleitamento exclusivo, dor durante o processo de amamentação, dúvidas, apoio, medo e insegurança, fatores para o sucesso do aleitamento e fatores que dificultaram o aleitamento.
Na primeira parte do questionário foram identificados os perfis das depoentes, conforme o quadro abaixo:
Nome
Idade
Escolaridade
Estado civil
Número de filhos
Lua
26 anos
Superior completo
  Casada
1º filho
Sol
36 anos
Pós graduada
Casada
1º filho
Vênus
30 anos
Superior completo
Solteira
1º filho
Gaia
29 anos
Superior completo
Casada
1º filho
Ametista
37 anos
Superior completo
Casada
2º filho
Safira
30 anos
Pós graduada
Casada
1º filho
Ágata
36 anos
Mestrado
Casada
2º filho
Rubi
36 anos
Pós graduada
Casada
1º filho
Esmeralda
35 anos
Superior completo
Casada
1º filho
Déva
34 anos
Mestrado
Casada
2º filho

No quesito parto, 80 % das mulheres tiveram uma cesariana, 50 % entraram em trabalho de parto.
Amamentação na primeira hora foi confirmada por 70% das mães. A importância desse ato para o sucesso no processo do aleitamento baseia-se na capacidade de interação dos recém-nascidos (RN) com suas mães nos primeiros minutos de vida. Esse contato é importante para o estabelecimento do vínculo mãe-bebê, além de aumentar a duração do aleitamento materno (Boccolini, 2007). Uma das mães que não puderam aleitar na primeira hora atribui os fatores de dificuldades no processo de amamentação: “Fatores físicos, não amamentação logo após o nascimento, hemorragia e em decorrência disso a estadia em UTI não permitindo a proximidade com o bebê de forma prolongada – foi estimulada a amamentação mesmo nesse período, em torno de duas vezes ao dia (...)”.
O tempo de aleitamento exclusivo, segundo a recomendação da OMS, de 6 meses se deu em 30 %, sendo que outras 30% ainda estavam aleitando filhos menores de 6 meses.
Quando questionadas se sentiram dor durante o processo de amamentação, as respostas foram divididas, 50% responderam sim e 50% não apresentaram dor. Dentre as dúvidas apresentadas foram citadas apojadura, “pega” (in) correta, quantidade (in) suficiente de leite materno e tempo de mamada. A dúvida sobre a “pega” correta foi a mais relevante: “Quando cheguei em casa fiquei um pouco insegura porque observei que meu filhote, estava realmente pegando apenas o bico para mamar e com isso vieram as fissuras, o sangramento e todo o sofrimento... mas insisti, amamentei chorando mas não desisti.”.
Nas primeiras mamadas, quando o bebê começa a sugar, a maioria das mulheres sente uma discreta dor ou desconforto, o que pode ser considerado normal. No entanto mamilos muito dolorosos e machucados, apesar de comuns, não são normais. A dor, geralmente, é provocada pelo posicionamento inadequado da mãe e/ou do bebê, dificultando a “pega” e causando o trauma aureolar (NOGUEIRA, 2007).
O esclarecimento das dúvidas sentidas pelo grupo em estudo foi buscado junto ao Banco de Leite Humano da cidade onde moram (20%), junto a sites na internet (60%), com ajuda de profissionais da saúde (pediatra, enfermeiro, doula - 20%).
Quando se fala sobre o apoio familiar que receberam (ou não) para aleitar exclusivamente durante os 6 primeiros meses, 80% responderam que sim. “No primeiro momento de dificuldade na amamentação, alguns familiares acharam desnecessário passar pelo chamado “desgaste” para amamentar, que tudo poderia se resolver com uma lata de leite e uma mamadeira. Depois da nossa primeira fase de insistência, quando nossa filha aprendeu a mamar, todos da família ficaram confiantes e orgulhosos da nossa convicção e força.”. 
Alguns fatores de dificuldade em promover o aleitamento foram citados e merecem destaque, como: “(...) Achei que a criança tivesse horário para amamentar (de 3 em 3h ou 2 em 2h) Por conta disso, não amamentava em livre demanda e dei o complemento.”, “Tivemos dificuldade na pega e ao final descobrimos que Iara colocava a língua pra cima e com isso não sugava, o problema foi o tempo que levamos pra entender o que a impedia de sugar. Logo depois de identificar fizemos exercícios para posicionamento da língua e isso facilitou tudo.”, “estas questões de insegurança nos dois primeiros meses”, “(...)foram mesmo as fissuras no bico do peito”.
O medo e insegurança para a capacidade de amamentar apareceu para 90% dessas mulheres. “Da primeira filha eu ficava muito insegura quando ela tinha cólica ou gases e ficava chorando e se contorcendo durante a amamentação. Ficava com medo dela não estar querendo mais mamar, ficava cheia de grilos. Depois aprendi a acalmá-la antes de colocar no peito. Mas eu só não ficava mais insegura porque a pediatra me apoiava. E isso me deixava mais tranquila. Mas eu cheguei a ouvir o clássico “será que o leite está sustentando... parece que ela não quer pegar...””.
O sucesso da amamentação foi 80% atribuído à persistência, como evidenciado na fala: “Acredito que o sucesso na amamentação exclusiva e prolongada se dê por um conjunto de fatores: a persistência, vontade e interesse, informação e emponderamento da mulher, ao apoio recebido pelos grupos nas trocas de experiências com outras mães e ao apoio profissional (banco de leite e pediatra)”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Avaliação das dificuldades de manejo na amamentação sob o olhar de quem o pratica não é comumente observada na literatura técnica e científica brasileira. Existem diversos estudos que comprovam a importância psicológica e biológica do leite materno à criança. Nesse estudo a tentativa é demonstrar outra perspectiva: a de quem aleita. Possibilitando um novo caminho para que essas lactantes deem a sua contribuição.
Ainda que as discussões sobre o empoderamento sejam tímidas, acredito ser esse um instrumento somatório à melhoria da prática do aleitamento materno. Afinal, se a população estiver informada a respeito das vantagens e manejo da amamentação, praticarem o alojamento conjunto- permitir que mães e bebês permaneçam juntos 24 horas por dia, forem encorajadas a amamentação sob livre demanda, problemas mamários, tais como as fissuras, citadas no nesse estudo, podem ser prevenidas.
Para que isso se concretize, é de fundamental importância a existência de vínculo entre os profissionais de saúde e a mulher, propondo um trabalho individual com enfoque educativo.
Para além, figuram inúmeras questões que giram em torno do processo de trabalho e que fogem ao escopo dessa abordagem.












REFERÊNCIAS
1-      ARANTES, Cassia, I. S. Amamentação - visão das mulheres que amamentam. Jornal de Pediatria. Vol 71. Nº 4. 1995.

2-      BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa (PT): Ed.70, 1997.

3-      BRASIL. Ministério da Saúde. Relatório Final da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher – PNDS 2006. Brasília, DF, 2008. Disponível em: http://www.saude.gov.br/pnds2006.

4-      BOCCOLINI C.S. et al. Fatores associados à amamentação na primeira hora de vida. Artigo. Escola Nacional de Saúde Pública, FIOCRUZ. 2007.

5-      CARVALHO, M. R. Amamentação – Bases Científicas, ISBN: 9788527716277, Selo Editorial: EGK, 455 páginas.Márcia Regina Vitolo - Nutrição da Gestação à adolescência, ISBN:8587148737, Reichmann & Affonso Editores, 2003.

6-      GIUGLIANI, Elsa R. J. - O aleitamento materno na prática clínica. Jornal de Pediatria - Vol. 76, Supl.3, 2000.


7-      ICHISATO, SMT; SHIMO, AKK. Aleitamento Materno e as Crenças Alimentares. Rev. Latino-Am. Enfermagem, v.9, supl.5, p.70-76, 2001.

8-      MACHUCA, Manuela, S, et al. Dificuldades encontradas pelas puérperas em relação ao aleitamento materno no pós-parto. Artigo. Pediatria Moderna Jul/Ago V 47 N 4.


9-      MEDRONHO, Roberto et al. Epidemiologia. 2 edição. 2009.

10-  NOGUEIRA, Adriana, T. et al- Mamãe, eu quero mamar. História, técnica, cultura e psicologia do Aleitamento Materno. São Paulo: Biblioteca24horas, 2011.







APÊNDICE
QUESTIONÁRIO
Trata-se de uma pesquisa para um curso de aperfeiçoamento em Aleitamento materno, com o título: Dificuldades e soluções na prática do aleitamento materno sob a ótica lactante. Os dados de identificação serão preservados e usados somente para fins deste estudo. Solicito que as respostas sejam verdadeiras para que esta pesquisa tenha fidedignidade.
Agradeço pela atenção.

I- DADOS DE IDENTIFICAÇÃO:
1. Nome
2. Idade    
4. Escolaridade
5. Estado Civil                                                6. Número de filhos

II- PARTO
7. Qual o tipo de parto?
8. Seu filho (a) nasceu com quantas semanas de gestação?
9. Entrou em trabalho de parto?


III- ALEITAMENTO
10. Você pôde amamentar na primeira hora de nascimento?
11. Amamentou exclusivamente (sem água, chás, eu afins) até quanto tempo?
12. Sentiu dor durante o processo de amamentação?
13. Teve dúvidas sobre amamentação? Caso sim, quais foram? E como fez pra saná-las?
14. Teve apoio da família pra promover o aleitamento materno exclusivo?
15. Qual sua maior dúvida sobre aleitamento nos primeiros três meses? E como você sentiu-se esclarecida da mesma?
16. Existiu, em algum momento, medo ou insegurança na sua capacidade de amamentar? Caso sim, como foi isso pra você.
17. A que você atribuiria um sucesso na sua amamentação?
18. Quais os fatores que dificultaram a amamentação do seu filho (a)?



MoNOGRAFIA do CURSO-CAPACITAÇÃO PARA SUPORTE AO ALEITAMENTO MATERNO. 18 de maio de 2012 Contato: tanilaglaeser@gmail.com


2 comentários:

  1. Muito bom o texto!!!! É de trabalhos assim e de divulgação que precisamos para esclarecer futuras mamães envoltas em uma cultura que troca leite materno por leite de vaca, colo por berço ou carrinho, etc. Parabéns Tanila!!!!!

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