TANILA AMORIM GLAESER
INTRODUÇÃO
A amamentação é
a melhor maneira de proporcionar o alimento ideal para o crescimento saudável e
o desenvolvimento dos recém-nascidos, além de ser parte integral do processo
reprodutivo, com importantes implicações para a saúde materna.
A Organização
Mundial de Saúde recomenda, para a população em geral, que os bebês recebam exclusivamente leite materno
durante os primeiros seis meses de idade. Para tanto, a OMS e a Unicef (Fundo
das Nações Unidas para a Infância) orientam ainda: 1) iniciar a amamentação nas
primeiras horas de vida da criança; 2) amamentação exclusiva, ou seja, o
lactante recebe apenas leite
materno, sem nenhum outro alimento ou líquido, nem mesmo água; 3) que a
amamentação aconteça sob demanda, ou seja, todas as vezes que a criança quiser,
dia e noite; 4) não usar mamadeiras nem chupetas.
Depois dos seis meses, com o objetivo de
suprir suas necessidades nutricionais, a criança deve começar a receber
alimentação complementar segura e nutricionalmente adequada, juntamente com a amamentação,
até os dois anos de idade - ou mais.
O
reconhecimento das vantagens da amamentação, tanto para os lactentes como para
suas mães, e dos riscos e custos associados ao desmame precoce, fizeram surgir,
a partir da década de 1980, várias iniciativas de organismos internacionais da
área da saúde para promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. (BRASIL,2008)
Entre
essas iniciativas estão as recomendações sobre alimentação infantil da
Organização Mundial de Saúde e a promulgação do “Código Internacional de
Controle do Marketing de Alimentos Substitutos do Leite Materno” pela
Assembléia Mundial de Saúde (WORLD HEALTH ORGANIZATION; UNITED NATIONS
CHILDREN’S FUND, 1981), e os “Dez Passos para o Sucesso do Aleitamento Materno”
(WORLD HEALTH ORGANIZATION; UNITED NATIONS CHILDREN’S FUND, 1989). Este último
deu origem à estratégia Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), entre
outras. Seguindo as recomendações internacionais, e por ser signatário delas,
em 1981 o Brasil iniciou a implementação do “Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento
Materno” (PNIAM) (BRASIL, 1981). Em 1989, a publicação da portaria ministerial
referente às “Normas Brasileiras de Comercialização de Alimentos para
Lactentes” (BRASIL, 1989) iniciou uma série de políticas e programas de saúde
nas décadas seguintes. (BRASIL, 2008)
É notório que as transformações da
sociedade no decorrer dos anos vêm influenciando nas formas de alimentação dos
lactantes. Onde se destacam:
processo de urbanização crescente das populações; inserção das mulheres ao
mercado de trabalho; mudanças padrões culturais e de assistência à saúde.
Apesar de as taxas de aleitamento
materno no Brasil crescer continuamente a cada ano, os valores observados no
país ainda é considerado baixo pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A última
Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde, consolidada em 2006 pelo Ministério
da Saúde, apontava que 39% das crianças nessa faixa etária recebiam o peito da
mãe.
Segundo Arantes
(1995), mesmo em sociedades onde a amamentação é a regra, as mães normalmente
introduzem alimentação complementar ou líquidos muito cedo. Vários estudos
publicados são unânimes ao fazerem a seguinte constatação: o desmame precoce é
algo concreto e significativo e a principal causa apontada pelas mães é a
hipogalactia, ou seja, as alegações maternas de “pouco leite” e “leite secou”.
Porém, os trabalhos não avançam no sentido da compreensão de tais alegações,
haja vista que as hipogalactias primárias são muito raras.
A cultura e a
opinião subjetiva determinam de que forma a nutriz irá alimentar seu bebê, favorecendo
ou restringindo a amamentação (Nogueira, 2011). Tendo em vista a importância do
aleitamento materno para a criança e a mulher, entendo que o sucesso da
promoção da amamentação está relacionado a programas educativos e valorização
dos hábitos culturais ligados à prática.
Sendo assim,
busquei compreender, através da ótica da lactante, suas dificuldades e soluções
para efetivação do aleitamento materno. Podendo, com os resultados, embasar
futuras discussões nas técnicas de manejo clínico da amamentação, respeitando
as opiniões e crenças das lactantes.
MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se
de um estudo do tipo seccional, que é uma estratégia de estudo epidemiológico
que se caracteriza pela observação direta de determinada quantidade planejada
de indivíduas em uma única oportunidade (Medronho, 2009).
O
instrumento de coleta utilizado para o presente estudo foi o questionário,
contendo perguntas classificadas como abertas.
Possibilitando assim, segundo Medronho (2009), uma proposta
exploratória, de busca de hipóteses que expliquem inter- relações de fenômenos ainda
não conhecidos, ou pelo menos, elaboradas de forma consciente pelos
pesquisadores.
As
perguntas foram feitas a lactantes de um grupo de mães, da rede social
Facebook, intitulado Mamães Capixabas, do qual faço parte, e que residem no
Espírito Santo. Foi considerado nesse estudo o número total de quinze mulheres
que amamentaram ou estavam em processo de amamentação, com filhos de até 1 (hum)
ano de idade no período do questionário.
Os questionários foram enviados por e mail
após serem explicados todos os objetivos do trabalho, deixando claro que seus
dados pessoais não seriam divulgados e que sua participação na pesquisa era
voluntária, sem envolvimento financeiro.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Segundo
Bardin (1977), a análise de conteúdo pode ser entendida como um conjunto de
técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos,
sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores
(quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às
condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
Ao
utilizar o questionário como instrumento de uma estratégia de investigação foi
preciso contextualizar as relações pessoais e compreender as condições sociais
de produção dos discursos, nos possibilitando descrever e situar os fatos
únicos e os cotidianos, construindo assim, cadeias de significação.
Na
análise e discussão do estudo foram extraídas duas categorias temáticas, quais
sejam: o parto e o aleitamento. A categoria aleitamento ensejou oito
subcategorias: amamentação na primeira hora, aleitamento exclusivo, dor durante
o processo de amamentação, dúvidas, apoio, medo e insegurança, fatores para o
sucesso do aleitamento e fatores que dificultaram o aleitamento.
Na
primeira parte do questionário foram identificados os perfis das depoentes,
conforme o quadro abaixo:
|
Nome
|
Idade
|
Escolaridade
|
Estado civil
|
Número de filhos
|
|
Lua
|
26 anos
|
Superior
completo
|
Casada
|
1º filho
|
|
Sol
|
36 anos
|
Pós
graduada
|
Casada
|
1º filho
|
|
Vênus
|
30 anos
|
Superior
completo
|
Solteira
|
1º filho
|
|
Gaia
|
29 anos
|
Superior
completo
|
Casada
|
1º filho
|
|
Ametista
|
37 anos
|
Superior
completo
|
Casada
|
2º filho
|
|
Safira
|
30 anos
|
Pós
graduada
|
Casada
|
1º filho
|
|
Ágata
|
36 anos
|
Mestrado
|
Casada
|
2º filho
|
|
Rubi
|
36 anos
|
Pós
graduada
|
Casada
|
1º filho
|
|
Esmeralda
|
35 anos
|
Superior
completo
|
Casada
|
1º filho
|
|
Déva
|
34 anos
|
Mestrado
|
Casada
|
2º filho
|
No
quesito parto, 80 % das mulheres tiveram uma cesariana, 50 % entraram em
trabalho de parto.
Amamentação
na primeira hora foi confirmada por 70% das mães. A importância desse ato para
o sucesso no processo do aleitamento baseia-se na capacidade de interação dos
recém-nascidos (RN) com suas mães nos primeiros minutos de vida. Esse contato é
importante para o estabelecimento do vínculo mãe-bebê, além de aumentar a
duração do aleitamento materno (Boccolini, 2007). Uma das mães que não puderam
aleitar na primeira hora atribui os fatores de dificuldades no processo de
amamentação: “Fatores físicos, não
amamentação logo após o nascimento, hemorragia e em decorrência disso a estadia
em UTI não permitindo a proximidade com o bebê de forma prolongada – foi estimulada
a amamentação mesmo nesse período, em torno de duas vezes ao dia (...)”.
O
tempo de aleitamento exclusivo, segundo a recomendação da OMS, de 6 meses se
deu em 30 %, sendo que outras 30% ainda estavam aleitando filhos menores de 6
meses.
Quando
questionadas se sentiram dor durante o processo de amamentação, as respostas
foram divididas, 50% responderam sim e 50% não apresentaram dor. Dentre as
dúvidas apresentadas foram citadas apojadura, “pega” (in) correta, quantidade
(in) suficiente de leite materno e tempo de mamada. A dúvida sobre a “pega”
correta foi a mais relevante: “Quando
cheguei em casa fiquei um pouco insegura porque observei que meu filhote,
estava realmente pegando apenas o bico para mamar e com isso vieram as
fissuras, o sangramento e todo o sofrimento... mas insisti, amamentei chorando
mas não desisti.”.
Nas
primeiras mamadas, quando o bebê começa a sugar, a maioria das mulheres sente
uma discreta dor ou desconforto, o que pode ser considerado normal. No entanto
mamilos muito dolorosos e machucados, apesar de comuns, não são normais. A dor,
geralmente, é provocada pelo posicionamento inadequado da mãe e/ou do bebê,
dificultando a “pega” e causando o trauma aureolar (NOGUEIRA, 2007).
O
esclarecimento das dúvidas sentidas pelo grupo em estudo foi buscado junto ao
Banco de Leite Humano da cidade onde moram (20%), junto a sites na internet
(60%), com ajuda de profissionais da saúde (pediatra, enfermeiro, doula - 20%).
Quando
se fala sobre o apoio familiar que receberam (ou não) para aleitar
exclusivamente durante os 6 primeiros meses, 80% responderam que sim. “No primeiro momento de dificuldade na
amamentação, alguns familiares acharam desnecessário passar pelo chamado
“desgaste” para amamentar, que tudo poderia se resolver com uma lata de leite e
uma mamadeira. Depois da nossa primeira fase de insistência, quando nossa filha
aprendeu a mamar, todos da família ficaram confiantes e orgulhosos da nossa
convicção e força.”.
Alguns
fatores de dificuldade em promover o aleitamento foram citados e merecem
destaque, como: “(...) Achei que a
criança tivesse horário para amamentar (de 3 em 3h ou 2 em 2h) Por conta disso,
não amamentava em livre demanda e dei o complemento.”, “Tivemos dificuldade na
pega e ao final descobrimos que Iara colocava a língua pra cima e com isso não
sugava, o problema foi o tempo que levamos pra entender o que a impedia de
sugar. Logo depois de identificar fizemos exercícios para posicionamento da
língua e isso facilitou tudo.”, “estas questões de insegurança nos dois
primeiros meses”, “(...)foram mesmo as fissuras no bico do peito”.
O
medo e insegurança para a capacidade de amamentar apareceu para 90% dessas
mulheres. “Da primeira filha eu ficava
muito insegura quando ela tinha cólica ou gases e ficava chorando e se contorcendo
durante a amamentação. Ficava com medo dela não estar querendo mais mamar,
ficava cheia de grilos. Depois aprendi a acalmá-la antes de colocar no peito. Mas
eu só não ficava mais insegura porque a pediatra me apoiava. E isso me deixava
mais tranquila. Mas eu cheguei a ouvir o clássico “será que o leite está
sustentando... parece que ela não quer pegar...””.
O
sucesso da amamentação foi 80% atribuído à persistência, como evidenciado na
fala: “Acredito
que o sucesso na amamentação exclusiva e prolongada se dê por um conjunto de
fatores: a persistência, vontade e interesse, informação e emponderamento da
mulher, ao apoio recebido pelos grupos nas trocas de experiências com outras
mães e ao apoio profissional (banco de leite e pediatra)”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Avaliação
das dificuldades de manejo na amamentação sob o olhar de quem o pratica não é
comumente observada na literatura técnica e científica brasileira. Existem diversos estudos que comprovam a
importância psicológica e biológica do leite materno à criança. Nesse estudo a
tentativa é demonstrar outra perspectiva: a de quem aleita. Possibilitando um
novo caminho para que essas lactantes deem a sua contribuição.
Ainda
que as discussões sobre o empoderamento sejam tímidas, acredito ser esse um
instrumento somatório à melhoria da prática do aleitamento materno. Afinal, se
a população estiver informada a respeito das vantagens e manejo da amamentação,
praticarem o alojamento conjunto- permitir que mães e bebês permaneçam juntos
24 horas por dia, forem encorajadas a amamentação sob livre demanda, problemas
mamários, tais como as fissuras, citadas no nesse estudo, podem ser prevenidas.
Para
que isso se concretize, é de fundamental importância a existência de vínculo
entre os profissionais de saúde e a mulher, propondo um trabalho individual com
enfoque educativo.
Para
além, figuram inúmeras questões que giram em torno do processo de trabalho e
que fogem ao escopo dessa abordagem.
REFERÊNCIAS
1- ARANTES, Cassia, I. S. Amamentação
- visão das mulheres que amamentam. Jornal de Pediatria. Vol 71. Nº 4. 1995.
2- BARDIN, L. Análise de conteúdo.
Lisboa (PT): Ed.70, 1997.
3- BRASIL. Ministério da Saúde.
Relatório Final da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde. Pesquisa Nacional
de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher – PNDS 2006. Brasília, DF, 2008.
Disponível em: http://www.saude.gov.br/pnds2006.
4-
BOCCOLINI C.S. et
al. Fatores associados à amamentação na primeira hora de vida. Artigo. Escola
Nacional de Saúde Pública, FIOCRUZ. 2007.
5-
CARVALHO, M. R.
Amamentação – Bases Científicas, ISBN: 9788527716277, Selo Editorial: EGK, 455
páginas.Márcia Regina Vitolo - Nutrição da Gestação à adolescência,
ISBN:8587148737, Reichmann & Affonso Editores, 2003.
6-
GIUGLIANI, Elsa
R. J. - O aleitamento materno na prática clínica. Jornal de Pediatria - Vol.
76, Supl.3, 2000.
7-
ICHISATO, SMT;
SHIMO, AKK. Aleitamento Materno e as Crenças Alimentares. Rev. Latino-Am.
Enfermagem, v.9, supl.5, p.70-76, 2001.
8-
MACHUCA, Manuela,
S, et al. Dificuldades encontradas pelas puérperas em relação ao aleitamento
materno no pós-parto. Artigo. Pediatria Moderna Jul/Ago V 47 N 4.
9-
MEDRONHO, Roberto
et al. Epidemiologia. 2 edição. 2009.
10-
NOGUEIRA,
Adriana, T. et al- Mamãe, eu quero mamar. História, técnica, cultura e
psicologia do Aleitamento Materno. São Paulo: Biblioteca24horas, 2011.
APÊNDICE
QUESTIONÁRIO
Trata-se de uma pesquisa para um curso de
aperfeiçoamento em Aleitamento materno, com o título: Dificuldades e soluções
na prática do aleitamento materno sob a ótica lactante. Os dados de
identificação serão preservados e usados somente para fins deste estudo.
Solicito que as respostas sejam verdadeiras para que esta pesquisa tenha
fidedignidade.
Agradeço pela atenção.
I- DADOS
DE IDENTIFICAÇÃO:
|
1.
Nome |
|
2.
Idade |
|
4.
Escolaridade |
|
5.
Estado Civil
6. Número de filhos |
II- PARTO
|
7.
Qual o tipo de parto? |
|
8.
Seu filho (a) nasceu com quantas semanas de gestação? |
|
9.
Entrou em trabalho de parto? |
III- ALEITAMENTO
|
10. Você pôde amamentar na primeira hora
de nascimento? |
|
11.
Amamentou exclusivamente (sem água, chás, eu afins) até quanto tempo? |
|
12. Sentiu dor durante o processo de
amamentação?
|
|
13. Teve dúvidas sobre
amamentação? Caso sim, quais foram? E como fez pra saná-las? |
|
14. Teve apoio da família
pra promover o aleitamento materno exclusivo?
|
|
15. Qual sua maior dúvida
sobre aleitamento nos primeiros três meses? E como você sentiu-se esclarecida
da mesma?
|
|
16. Existiu, em algum
momento, medo ou insegurança na sua capacidade de amamentar? Caso sim, como
foi isso pra você.
|
|
17. A que você atribuiria
um sucesso na sua amamentação?
|
|
18. Quais os fatores que
dificultaram a amamentação do seu filho (a)?
|
MoNOGRAFIA do CURSO-CAPACITAÇÃO PARA SUPORTE AO ALEITAMENTO MATERNO. 18 de maio de 2012 Contato: tanilaglaeser@gmail.com

Muito bom o texto!!!! É de trabalhos assim e de divulgação que precisamos para esclarecer futuras mamães envoltas em uma cultura que troca leite materno por leite de vaca, colo por berço ou carrinho, etc. Parabéns Tanila!!!!!
ResponderExcluirMuito obrigada Dri!
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